Faz hoje (Novembro 2010) 100 anos que...
Faz hoje 100 anos que...
1 de Novembro de 1910
Clérigo que não deixa executar a “Portuguesa”
Menos de um mês após a implantação da República em Portugal, escreve um leitor ao jornal O Século, dando conta de um pequeno episódio surgido na consequência das mudanças por que passa o país. Durante a festa de S. Simão, realizada na “pitoresca” aldeia de Urro (Penafiel), “o povo pediu sempre em altos berros à filarmónica que tocasse a Portuguesa”. Porém, o mestre da música recusou-se “sempre com tal obstinação, que a todos era fácil perceber que procedia assim por determinação daquele que tinha na festa intervenção directa”. De facto, à tarde o homem explicou-se, “declarando e provando que o abade, ao contratar a filarmónica, lhe impusera como condição não executar o hino nacional republicano”. Estas declarações provocaram escândalo, “estando para haver desaguisados”. Mas tudo serenou “ouvindo o povo a Portuguesa com grande entusiasmo e aplaudindo-a com extraordinário delírio”. Termina o leitor com a seguinte reflexão: “O tal clérigo de Urro ainda não fez as pazes com a República, e como ele, outros clérigos por este país além. Resta apenas que o governo os meta na ordem ou na… cadeia, conforme a receita que o Código Penal manda aplicar àqueles que se revoltam e agridem o regime do país em que vivem”.
Fonte: O Século n.º10377, 1 de Novembro de 1910, p.3
2 de Novembro de 1910
Expulsão dos Jesuítas
Noticia o jornal O Século a expulsão dos jesuítas, decretada na sequência da implantação da República em Portugal:
“A Companhia de Jesus de tão odiosas tradições e na qual o marquês de Pombal deu a grande golpe em Portugal, mais uma vez foi expulsa do país e durante algum tempo estiveram detidos no forte de Caxias muitos dos seus membros, superiores, padres, noviços, toda a legião negra a que os empregados das cadeias civis de Lisboa foram aplicar os métodos antropométricos a fim de futuro poderem ser reconhecidos se tiverem a veleidade audaciosa de pretenderem voltar. (…)”
Anuncia-se na mesma notícia que o próximo número da revista Ilustração Portuguesa se dedicará a este assunto, apresentando um artigo “dum dos mais ilustres escritores que combateram ultimamente os jesuítas e que deve causar profunda sensação”.
Fonte: Século n.º10378, 2 de Novembro de 1910, p.2
3 de Novembro de 1910
Promulgação da Lei do Divórcio
"O Governo Provisório da República Portuguesa; em nome da República, faz saber que se decretou, para valer como lei, o seguinte:
Capítulo I – Da dissolução do casamento
Artigo 1.º
O casamento dissolve-se:
1.º Pela morte de um dos conjugues;
2.º Pelo divórcio.
Artigo 2.º
O divórcio, autorizado por sentença passada em julgado, tem juridicamente os mesmos efeitos da dissolução por morte, quer pelo que respeita às pessoas e aos bens dos cônjuges, quer pelo que respeita à faculdade de contraírem novo e legítimo casamento.
Artigo 3.º
O divórcio pode ser pedido só por um dos cônjuges ou por ambos conjuntamente. No primeiro caso diz-se divórcio litigioso; no segundo caso diz-se divórcio por mútuo consentimento.
Capítulo 2 – Do divórcio litigioso
Secção 1 – Das causas e processo do divórcio litigioso
Artigo 4.º
São taxativamente causas legítimas do divórcio litigioso:
1.º O adultério da mulher;
2.º O adultério do marido;
3.º A condenação efectiva de um dos cônjuges a qualquer das penas maiores fixas dos artigos 55º e 57º do Código Penal;
4º As sevícias ou as injúrias graves;
5º O abandono completo do domicílio conjugal por tempo não inferior a três anos;
6º A ausência, sem que do ausente haja notícias, por tempo não inferior a quatro anos;
7º A loucura incurável quando decorridos, pelo menos, três anos sobre a sua verificação por sentença passada em julgado, nos termos dos artigos 419º e seguintes do Código do Processo Civil;
8º A separação de facto, livremente consentida, por dez anos consecutivos, qualquer que seja o motivo dessa separação;
9º O vício inveterado do jogo de fortuna ou azar;
10º A doença contagiosa reconhecida como incurável, ou uma doença incurável que importe aberração sexual.
(…)"
Mais informação em: http://dre.pt/pdfgratis/1910/11/02600.pdf
Fonte: Diário do Governo, nº26, 4/11/1910, p. 282
4 de Novembro de 1910
A proclamação da República em Cabo Verde
Teve eco na imprensa e no jornal O Século a proclamação da República nas colónias portuguesas. O jornal O Século dedica neste dia uma coluna à proclamação da república em Cabo Verde, referindo que esta foi recebida com “júbilo e muito regozijo em toda a província”, uma vez que “o povo de Cabo Verde, há mais de 400 anos amarrado ao jugo da velha monarquia, via, enfim, raiar a sua aurora de liberdade (…)”. Descreve o correspondente d’O Século em Cabo Verde:
“Não sei descrever a alegria da sociedade do Mindelo quando foi anunciada a constituição do governo provisório da República, figurando como presidente o velho sábio Teófilo Braga, e, como ministros os drs. António José de Almeida, Afonso Costa e outros vultos proeminentes do partido republicano.
O delírio é extraordinário. Girândolas de foguetes sobem aos ares, a artilharia salva e a banda de música dos Amadores Mindelenses percorre as ruas tocando a Portuguesa. Respira-se, enfim. (…)”.
Fonte: O Século n.º 10380, 4 de Novembro de 1910, p.3
5 de Novembro de 1910
Amnistia Geral
“Presidência do Governo Provisório da República
Desejando solemnizar o acontecimento mais notável da história pátria com um acto de clemência, tão amplo quanto seja compatível com a segurança commum, e mais extenso e profundo que qualquer outro semelhante que haja registo na nossa legislação, o Governo Provisório da República Portuguesa faz saber que, em nome da República, se decretou, para valer como lei, o seguinte:
Artigo 1.º
É concedida amnistia geral e completa, até à data d’este decreto, para os crimes previstos nos seguintes artigos do Código Penal:
1.º Artigos 130.º a 135.º (crimes contra a religião catholica, apostólica, romana);
2.º Artigos 163.º a 176.º, com a excepção dos n.os 1.º, 2.º e 4.º do artigo 171.º (crimes contra a segurança interior do Estado);
3.º Artigos 177.º a 182.º (reuniões criminosas, sedição, assuada e injurias contra as autoridades públicas);
4.º Artigos 183.º a 195.º (actos de perturbação do artigo 185.º, resistência, desobediência, tirada e fugida do presos);
5.º Artigos 199.º a 205.º (crimes contra o exercício dos direitos políticos);
6.º Artigos 246.º e [único], e 247.º, 2.º (violação das leis sobre inhumação e falta de respeito);
7.º Artigo 253.º (armas prohibidas);
8.º Artigo 277.º (colligações de patrões e greves);
9.º Artigo 283.º (associações secretas);
10.º Artigo 379.º (ameaças);
11.º Artigos 381.º a 388.º (duello);
12.º Artigos 407.º a 420.º (crimes contra a honra, diffamação, calumnia e injuria, incluindo o ultraje à moral pública);
13.º Artigos 471.º a 481.º, com excepção do 4.º do artigo 471.º e do n.º 2.º do artigo 478.º (damnos); e
14.º Artigo 483.º (provocação publica e crime)
Único. São compreendidos na disposição d’este artigo todos os abusos de liberdade de imprensa e todos os leictos contra o exercício do direito eleitoral, e o seu benefício é ainda extensino às infracções da disciplina académica, tanto nos estabelecimentos superiores de ensino como nos secundários e especiais e technicos.
(…)"
Mais informação em: http://dre.pt/pdfgratis/1910/11/02600.pdf
6 de Novembro de 1910
Aniversário da Voz do Operário
O jornal O Século dá eco das festas comemorativas do trigésimo segundo aniversário da associação Voz do Operário. As festas iniciaram-se com “uma visita de cumprimentos à Câmara Municipal de Lisboa e ao governo provisório da República, acompanhada por cerca de 4000 crianças, que frequentam as suas escolas, pelos seus respectivos professores e por grande número de sócios”.
O enorme cortejo de crianças partiu da sede da colectividade, no Largo do Outeirinho da Amendoeira e dirigiu-se para os Paços do Concelho. Depois de recebidas na Câmara Municipal, onde receberam “das mãos dos vereadores lindos raminhos de flores dos jardins municipais”, as crianças foram ao ministério do interior, no Terreiro do Paço, para cumprimentar o presidente do governo provisório.
O cortejo ficou marcado pelo “admirável efeito produzido pelos pendões diversos que empunhavam e pelos laços vermelhos e verdes com que as meninas prendiam os seus cabelos e que os rapazes ostentavam ao peito” e pelo constante entoar dos hinos “A Sementeira”, “A Portuguesa” e “A Marselhesa”.
Fonte: O Século n.º 10282, 6 de Novembro de 1910, p.1
7 de Novembro de 1910
Feira de gado do Campo Grande
É notícia do jornal O Século a feira anual de gado do Campo Grande, que apesar de ter tido “uma concorrência de curiosos” bastante numerosa, teve “menos comerciantes de gado e lavradores do que o ano passado”, sendo o gado “mais caro e menos numeroso”.
O periódico faz o ponto da situação dos preços praticados naquele evento: “bois, junta, 50 a 60 libras.(…) Muares, de 20 a 30 libras cada uma; cavalos, para todo o preço. (…) Vacas leiteiras, de 20 a 30 libras; porcos, a 4$000 cada arroba; leitões, a 2$000 e 3$500; cabras, carneiros e burros, para todo o preço. O gado esteve este ano mais caro, ao que parece, por haver menos”. A notícia termina com as seguintes notas: “ As barracas de comida fizeram bom negócio, e bem assim os vendedores ambulantes e outros comerciantes. O serviço de segurança foi feito pela cavalaria da guarda republicana. É possível que hoje apareça ainda algum gado, conquanto a feira tivesse terminado ontem. As barracas permanecem ali algum tempo”.
Fonte: O Século n.º 10383, 7 de Novembro de 1910, p.3
8 de Novembro de 1910
Viagem ministerial ao norte
É noticiada no jornal O Século a viagem feita pelo ministro do Interior, António José de Almeida ao Porto, onde andou, “de automóvel, acompanhado dos srs. governador civil e administrador do bairro oriental, a fazer diversas visitas”.
António José de Almeida visitou: o Hospital do Bonfim, onde “percorreu as várias dependências daquele estabelecimento, reconhecendo a necessidade de ali se fazerem urgentes reparações”; o Liceu Alexandre Herculano, onde foi “aguardado pelo reitor, professor e alunos, que levantaram muitos vivas”; a Escola de Belas-Artes, onde foi ovacionado por “um grupo de alunos e alunas”; a Academia Politécnica, onde os estudantes fizeram uma “recepção muito calorosa”; e o liceu Rodrigues de Freitas, do qual “a impressão do ministro não podia ser mais desagradável, tais as condições em que se encontra aquele edifício”.
Seguiu-se a visita à escola oficial de Miragaia, regida pelo “decano dos professores primários, sr. José Victorino da Silva, que ficou muito surpreso com tal visita, pois nunca na sua longa carreira do magistério e professorado oficial foi assim distinguido”.
Depois das visitas o ministro “recolheu ao Hotel, almoçando com Guerra Junqueiro, dr. Carlos Falcão e Henrique Cardoso”.
Fonte: O Século n.º 10384, 8 de Novembro de 1910, p.1
9 de Novembro de 1910
Heróis da revolução
Anuncia o jornal O Século que “vão ser galardoados os oficiais da armada a cuja heroicidade se deve, em grande parte, a proclamação da República”, devendo o respectivo decreto ser “ainda esta semana (…) assinado pela pasta da marinha”. Refere o periódico também a futura publicação do decreto “louvando os médicos que durante os dias da revolução prestaram serviço no hospital da Marinha”, sendo que “aos enfermeiros e serviçais do mesmo hospital, que serviram com dedicação no mesmo período, serão concedidas pensões anuais de 36$500, 55$000 e 73$000 réis”. É ainda noticiada a assinatura do decreto promovendo “por distinção, as praças da armada que, com honrosa heroicidade, tomaram parte activa no movimento revolucionário de 5 de Outubro”.
Fonte: O Século n.º 10385, 9 de Novembro de 1910, p.1
10 de Novembro de 1910
Escola republicana no Convento do Quelhas
O jornal O Século noticia que o convento do Quelhas “foi cedido à benemérita instituição republicana denominada O Vintém Preventivo”, devendo ser o edifício “adequado a uma escola modelo, com aulas práticas e oficinas para educação completa e gratuita de 500 crianças, sendo 250 do sexo feminino e 250 do masculino”. Refere o periódico que a nova escola denominar-se-á “Asilo 5 de Outubro de 1910”, acrescentando que “a educação nela ministrada e os seus fins serão bem mais úteis e proveitosos do que os ensinamentos do antigo convento do Quelhas”. A direcção da associação O Vintém Preventivo era composta “de 10 membros, sendo 5 do Directório e 5 acreditados comerciantes”.
Fonte: O Século n.º 10386, 10 de Novembro de 1910, p.1
11 de Novembro de 1911
Excursões escolares
Destaca o jornal O Século o aumento do “interesse pelas excursões escolares”, que se enquadram dentro “da moderna pedagogia” que “reclama para o ensino elementos tão variados e complexos que impossível se torna reuni-los em uma escola, por mais provida e rica que ela seja”, preenchendo o professor essa lacuna “por meio de excursões instrutivas, visitando oficinas, jardins, museus, monumentos, etc.”. São então notícia o início das excursões “do presente ano lectivo”: “os alunos da Escola Central da rua da Barroca (…) visitaram o jardim botânico e o museu da Escola Politécnica; os da Escola Central da Costa do Castelo (…) visitaram o museu de artilharia; os da Escola Central da rua das Gaivotas (…) estiveram na Casa Pia, percorrendo e admirando todas as dependências do histórico monumento; os da Escola Central da calçada do Combro (…) visitaram a fábrica do gás, e os alunos da escola masculina de S. Sebastião da Pedreira, com o seu pessoal docente (…) visitaram o Jardim Zoológico”.
Fonte: O Século n.º 10387, 11 de Novembro de 1910, p.1
12 de Novembro de 1911
Lei do Inquilinato
Decreto, com força de lei, de 12 de Novembro: Regulando o inquilinato in Diário do Governo, n.º 34, 14 de Novembro de 1910, pp.398-400.
Regula o inquilinato sob a República da responsabilidade instituindo o pagamento mensal das rendas que antes era feito semestral ou trimestralmente. Permitia, ainda assim, o aumento periódico das rendas logo que findasse o período acordado do arrendamento. Revoga-se a lei de 21 de Maio de 1896 sobre despejo de prédios urbanos, os artigos 498.º a 507.º do Código do Processo Civil e o Decreto de 30 de Agosto de 1907 na parte aplicável.
13 de Novembro de 1910 - Ginásio Clube Português
Anuncia o jornal O Século a inauguração, na vila Matias, em Algés, do “campo de sports atléticos” do Ginásio Clube Português. A iniciativa deveu-se “a um grupo dedicado de sócios do clube, que, desejosos de manter a agremiação no lugar de primacial destaque que sempre manteve dentro do campo da educação física, entenderam, e muito bem, que o clube devia seguir a evolução desportiva”, sendo que “hoje está demonstrado que os jogos de destreza ao ar livre são os mais necessários para o complemento de uma boa educação ginástica”.
O novo campo era “vasto e apropriado à execução de todos os exercícios atléticos” e a sua inauguração contaria com “uma festa brilhante, com entradas pagas, revertendo o produto em benefício das famílias vítimas da revolução” e com a participação de “10 clubes para disputar as provas clássicas do atletismo ao ar livre”.
Fonte: O Século n.º 10389, 13 de Novembro de 1910, p.1
14 de Novembro de 1910
O comício dos caixeiros
Merece destaque na primeira página do jornal O Século o comício da classe dos caixeiros que teve lugar na esplanada do Ateneu Comercial. O tema central do comício foi a lei do descanso semanal e o número de horas de trabalho, propondo a mesa de trabalho apresentar ao governo, entre outras, as seguintes reclamações: “Descanso - Que o dia de descanso seja o domingo, excepto para certos estabelecimentos, aos quais será concedido o descanso por turnos; (…) Horas de trabalho – Ramos de tabacaria, mercearia, salsicharia, confeitaria e padaria, das 7 da manhã às 9 horas da noite; ramos de modas, chapéus, ferragens, fanqueiro (…), etc., das 8 horas das manhã às 8 horas da noite. (…); Refeições – que a todo o empregado seja concedido, dentro das horas de trabalho, o período de duas horas para as duas refeições diárias”.
No comício os caixeiros de Lisboa resolveram “afirmar categoricamente perante o país usar de todos os meios ao seu alcance (…) para que o governo (…) não seja iludido pelo patronato (…)”.
Fonte: O Século n.º 10390, 14 de Novembro de 1910, p.1
15 de Novembro de 1910
Greve dos Eléctricos
Teve eco na imprensa e no jornal O Século o transtorno causado pela greve dos eléctricos em Lisboa, declarada pelos “operários da fábrica geradora instalada em Santos, nos terrenos à beira do rio”: “Pouco passava do meio-dia quando, ontem, em toda a cidade (…) os eléctricos estacaram por falta de corrente. Os passageiros (…) supuseram tratar-se de qualquer avaria (…) e pouca importância deram ao caso, dispostos a esperarem, na medida da pressa com que iam nos seus afazeres, que a circulação se estabelecesse.
Em breve, porém, (…) se espalhou a notícia de que os eléctricos não mais funcionariam, na sequência de se haverem declarado em greve os operários (…).
Então, foi geral a debandada, todos comentando o acontecimento (…).
Os cocheiros e os chauffeurs tiveram o seu S. Martinho, três dias depois do verdadeiro, recebendo alugueis exagerados e andando numa constante faina, que se prolongou por toda a noite. Na praça não havia automóveis nem carruagens, que eram assaltados nas ruas, logo que largavam passageiros (…)”
Fonte: O Século n.º 10391, 15 de Novembro de 1910, p.1
16 de Novembro de 1910
Comemorações da proclamação da república brasileira
Tiveram eco na imprensa e no jornal O Século as manifestações que tiveram lugar por todo o país, por ocasião do 21.º aniversário da proclamação da república brasileira. Segundo aquele periódico, “a festa fora anunciada com o entusiasmo que se põe sempre por actos que podem contribuir para a prosperidade dos dois países, que se estimam como irmãos devotados e dedicados”.
Em Lisboa, “o povo irrompeu com frenéticas aclamações ao Brasil, sendo, durante largo tempo, o coro de vivas extraordinariamente entusiástico e caloroso”, sendo que foram muitas as colectividades que foram à Legação do Brasil apresentar as suas homenagens.
Também outras localidades participaram desta comemoração: no Porto houve manifestações e um “banquete de 150 talheres”; em Braga o cônsul e o governador civil brindaram à “confraternização dos dois povos”; em Faro organizou-se um “grandioso cortejo”; e em Setúbal o partido republicano organizou uma conferência.
Fonte: O Século n.º 10392, 16 de Novembro de 1910, pp. 1 e 5
17 de Novembro de 1910 - Biscoitos republicanos
O jornal O Século apresenta uma pequena e curiosa notícia: “Com a denominação «Os deputados republicanos», existe agora uma nova marca duns primorosos biscoitos, qualidade finíssima e apurada manipulação que a considerada fábrica de biscoitos pertencentes à firma Eduardo da Conceição e Silva acaba de expor à venda. O cromo que reveste as caixas é um belo trabalho litográfico e representa o busto da República, circundado pelos retratos dos 14 deputados republicanos, eleitos no último período do regime extinto”.
Fonte: O Século n.º 10393, 17 de Novembro de 1910, p.2
18 de Novembro de 1910
Um alvitre a todas as classes
É publicado no jornal O Século, em destaque, um texto assinado por José Clemente, intitulado "Um alvitre a todas as classes que estão em Greve, e para aquelas que, de futuro, pretendam fazer reclamações” e cujo conteúdo passamos a transcrever:"
1.º - Atendendo a que as Greves nesta ocasião só poderão contribuir para a destruição do nosso ideal, que foi a implantação da República Portuguesa (…), todos deverão retomar o trabalho;
2.º - Nomear-se-á uma comissão de 3 membros de cada Classe, a qual fará as reclamações por escrito a seus patrões;
3.º - Na sendo atendida, reclamar por intermédio da Associação de Classe (…):
4.º - Nunca abandonar o trabalho sem que estejam esgotados os esforços daquelas entidades;
5.º - Não se declarar Greve numa classe sem que outra esteja terminada.”
O texto termina com um inesperado parágrafo:
"É esta a minha humilde opinião (…) e estou convicto se hoje todos tomarem as suas ocupações, se tornará simpático esse acto e todos aplaudirão os funcionários, indo trabalhar. Ganharão o sustento para os seus e ainda lhes ficará alguma coisa para comprarem os Fatos, Sobretudos da Moda e Gabões de Aveiro da célebre Casa das Tesouras, da Rua da Escola Politécnica (…), que bem precisos estão sendo para a quadra que estamos atravessando."
Fonte: O Século n.º 10304, 18 de Novembro de 1910, p.2
19 de Novembro de 1910
Teatros de Lisboa
O jornal O Século anuncia nas suas páginas as várias peças em exibição nos teatros de Lisboa: o Teatro da República apresenta o “grande êxito do teatro Vaudeville, de Paris”, intitulado Patachon (traduzido para português por Acácio de Paiva com o título O Convertido); o Teatro Avenida leva à cena a opereta Amor de Príncipes, “verdadeiro sucesso unanimemente consagrado pelo público e pela imprensa” com “cenários e guarda-roupa riquíssimos” e “excelentes efeitos de mise-en-scène”; o Teatro Apolo anuncia a 200.º e última representação de Sol e Sombra e a estreia de Fado, “opereta portuguesa em 4 actos, original de João Bastos e Bento Faria, música do maestro Filipe Duarte”.
Fonte: O Século n.º 10395, 19 de Novembro de 1910, pp. 2, 3 e 4
20 de Novembro de 1910
Grandes festas de atletismo em Coimbra
São anunciadas no jornal O Século as festas de atletismo de Coimbra, “promovidas por “Os Sports Ilustrados”, com o concurso da academia de Coimbra, em benefício do Jardim Escola João de Deus”.
As festas contarão com a participação de ginastas lisbonenses que “vão contribuir, com a exibição dos seus merecimentos artísticos e acrobáticos (…) para uma grande obra educativa (…). As festas têm assim um lado beneficente,e, como são educativas, impõem-se à consideração de todos”.
O periódico acrescenta: “No programa devem incluir-se números que constituem as maiores atracções das grandes festas do Coliseu dos Recreios (…). Entre esses trabalhos (…) figuram números de “forças combinadas”, voos, triple-trapézio, argolas, jogo de pau, poses plásticas, pesos e alteres, matches de luta greco-romana e de box e um assalto de esgrima”.
Fonte: O Século n.º 10396, 20 de Novembro de 1910, p.1
21 de Novembro de 1910
Inauguração da Escola Domingos Morais em Sintra
“Se porventura algumas dúvidas ainda pudessem ser suscitadas sobre a sinceridade das afirmações democráticas, feitas pela população laboriosa do concelho de Sintra, dissipar-se-iam por completo ante o entusiasmo espontâneo e frenético que ressoou ontem naquela pitoresca vila, saudando a República portuguesa, nas pessoas de dois dos seus vultos mais prestigiosos” – o jornal O Século inicia com esta frase a notícia do festival que teve lugar em Sintra por ocasião inauguração das escolas Domingos José de Morais.
O festival contou com a presença dos “srs. drs. João de Menezes, director geral de instrução secundária e superior, Brito Camacho, algumas crianças do Vintém das Escolas (…) e representantes da imprensa”.
A nova escola “é uma escola modelo; cercada de janelas muito rasgadas, por onde o ar entra livremente (…). O edifício é dividido por um corredor, encontrando-se de um lado as aulas para o sexo masculino e do outro para o sexo feminino. A entrada da escola está profusamente adornada de arbustos e fetos, numa disposição requintadamente artística”.
Vários discursos foram proferidos por ocasião daquele evento, homenageando o benfeitor Domingos Morais e relevando o papel da República no desenvolvimento da instrução pública.
Fonte: O Século n.º 10397, 21 de Novembro de 1910, p.2
22 de Novembro de 1910
Nova Sala Nutrícia em Lisboa
O jornal O Século anuncia a inauguração de uma nova sala de venda da Nutrícia de Lisboa, “altruísta empresa que, facultando a quem tem no devido apreço a saúde ocasião para se fornecer de todos os alimentos racionais indispensáveis a quem quer nutrir-se racionalmente”. O periódico chama a atenção para o serviço “de valor incalculável” prestado por aquela entidade, uma vez que “a Nutrícia é uma consequência da campanha de protecção à infância” e “uma escola onde as mães podem aprender a alimentar os filhos; e sendo-o é a maior arma com que pode contar-se para a diminuição da mortalidade infantil, tão elevada em Lisboa, que só é excedida pela de Madrid e Berlim”.
O novo estabelecimento, da autoria do arquitecto Raul Lino é “um encantador templozinho onde a higiene, a limpeza e a alegria simples que lava a alma tem o mais intenso culto”, sendo marcado pela mobília branca e pela nota colorida de um quadro de António Carneiro que representa “um rancho de petizes em torno da mãe, aguardando a distribuição de um caldo vivificante”.
Fonte: O Século n.º 10398, 33 de Novembro de 1910, p.1
23 de Novembro de 1910
Nova fórmula do juramento militar
É noticiada no jornal O Século a ratificação do juramento a prestar “pelos oficiais promovidos a alferes, ou equiparados e pelos recrutas alistados”. O estabelecimento da nova fórmula tem em conta o dever de dar a esse acto “a maior solenidade possível”. A nova forma centra-se no juramento da defesa “da Pátria e das leis da República” que deverão ser servidas “com zelo e vigor”.
O protocolo para os actos militares relacionados com o juramento também é alterado. Descrevemos um deles: “O serviço será feito de grande uniforme. Às 8 horas da manhã mandar-se-á hastear a bandeira nacional (…) devendo assistir ao acto a banda de música, os corneteiros, os clarins. Os ranchos serão melhorados. À hora que for determinado haverá formatura geral do corpo, na parada do quartel, fazendo, nessa ocasião, o ajudante, a chamada dos recrutas e depois a leitura dos deveres militares (…); seguindo-se as alocuções relativas à importância e valor desses deveres, bem como da do juramento, as quais serão proferidas elo capelão e pelos oficiais que para esse fim se tenham inscrito.”
Fonte: O Século n.º 10399, 23 de Novembro de 1910, p.1
24 de Novembro de 1910
Monumento a Joaquim António de Aguiar
O jornal O Século noticia que “o distinto escultor sr. Costa Mota convidou ontem a imprensa a visitar o seu atelier, onde ele expunha, aos olhares curiosos da reportagem e dos que avidamente andam de atelier em atelier em busca de sensações artísticas, a bela maquete do monumento prestes a erigir-se em Coimbra, em honra e consagrando a memória do grande liberal e superior estadista Joaquim António de Aguiar”.
O repórter afirma que o trabalho realizado por Costa Mota é “belo, esplêndido de imponência, num admirável conjunto de formas, com expressão fisionómica que fielmente retrata o prazer, a satisfação do dever cumprido (…)”. E acrescenta: “O monumento (…) vai ser erigido em Coimbra, num esplêndido local no Largo da Portagem. (…) A sua inauguração não deve demorar, visto que, segundo o contrato entre o ilustre artista e a comissão a que preside o sr. dr. Bernardino Machado, deve tudo estar terminado no próximo ano. Brevemente, pois, todos poderão extasiar-se na contemplação dum monumento que não só é uma obra prima de arte, como também a merecida homenagem ao grande liberal que energicamente combateu em vida a reacção, que ao povo impedia o caminho ara o regímen que hoje goza, de progresso e ampla liberdade”.
Fonte: O Século n.º 10400, 24 de Novembro de 1910, p.1
25 de Novembro de 1910
Greve dos Gasomistas
Teve eco na imprensa e no jornal O Século a greve dos trabalhadores das Companhias Reunidas do Gás e da Electricidade.
O conflito iniciou-se quando foram despedidos os gasomistas que formavam uma comissão, “a qual se dispunha a organizar a respectiva associação de classe”.
Os operários ainda tentaram negociar a solução do conflito com o governo e com a empresa, mas o ministro do interior declarou “que tinham sido estéreis todos os esforços que haviam sido empreendidos junto da direcção das Companhias do Gás e da Electricidade para a sua readmissão”. Na consequência deste facto, os trabalhadores reuniram-se com os seus camaradas que então proclamaram a greve, “largando o trabalho, à meia-noite, uns cem operários que deviam ser rendidos e recusando-se os que iam rendê-los a entrar nas oficinas”.
O periódico avisa: “A essa hora cessou, portanto, a produção de gás (…), motivo por que, segundo nos informam, deixará de haver luz de gás em Lisboa à 1 hora da tarde de hoje (…).
Fonte: O Século n.º 10401, 25 de Novembro de 1910, p.5
26 de Novembro de 2010
Trabalho das mulheres é mal remunerado
Refere o jornal O Século, em artigo destacado na primeira página, “a enorme aluvião de cartas que temos recebido de costureiras, de ajuntadeiras e de operárias de fábricas, queixando-se amargamente da miserável situação em que vivem, em virtude dos diminutos salários que recebem, remunerando doze e catorze horas de trabalho extenuante (…). Denunciando diversos testemunhos do “rosário de amarguras” de algumas trabalhadoras pertencentes à Federação Operária, o repórter chama a atenção para o atraso em que ainda vive o país: “As pobres mulheres que se acoitam nos ateliers e nas fábricas, em procura do pão de cada dia, continuam a ser tidas como máquinas, cujos esforços não podem ser tomados em conta (…)”.
Contudo, clama em tom de esperança: “Com a revolução política que libertou o país de um regímen falido e estanhado, irradiou uma nova aurora de vida social para os oprimidos e espoliados. (…) Aqueles que trabalham e que tanto sofreram às iniquidades do antigo regímen unem-se, entendem-se e reclamam. As associações operárias (…) começam a movimentar-se, o número dos seus sócios engrossa dia a dia e os interesses de classe são tratados com entranhado carinho e inteligência”.
Fonte: O Século n.º 10402, 26 de Novembro de 1910, p.1
27 de Novembro de 1910
Cármen no São Carlos
É anunciada no jornal O Século a récita que terá lugar no Teatro de S. Carlos, e que “pela expectativa de que há sido precedida, promete ser das mais concorridas e animadas da actual temporada lírica”. Refere o redactor que “como se sabe, logo no começo da saison, ao saber-se que Maria de L’Isle cantaria a Cármen, e que essa Cármen estava consagrada pelos críticos de maior categoria no estrangeiro, como a mais bela, a mais consumada das Carmens, como a Cármen ideal, o interesse manifestou-se de tal maneira, que assegurou à récita desta noite foros de um brilhantíssimo acontecimento artístico”. A estrela é considerada pelo jornalista não só como “uma gentil figura de mulher”, mas também “como um espírito culto e uma admirável actriz”.
Fonte: O Século n.º 10403, 27 de Novembro de 1910, p.3
28 de Novembro de 1910
Contos populares portugueses
Teve eco no jornal O Século a publicação “em nítida edição”, de um volume de contos assinado “pelo sábio professor Consiglieri Pedroso, há pouco falecido”. Refere o redactor: “ Durante muitos anos, os estudos de mitografia apaixonaram e absorveram Consiglieri. Com verdadeira devoção ele coleccionou contos, no intuito de, assim, carrear materiais para uma vasta obra científica, que, por circunstâncias diversas, não pôde realizar. (…) Não quis, porém, desaproveitar o trabalho realizado e, seleccionando os elementos paciente e escrupulosamente buscados, compôs o volume de que tratamos”. Compreendendo sessenta e três contos populares, o livro é considerado pelo repórter como “um soberbo documento filológico e um interessante documento da estética literária do povo português”, sendo, por isso, “uma obra notável, digna de figurar na estante dos estudiosos”.
Fonte: O Século n.º 10404, 28 de Novembro de 1910, p.3
29 de Novembro de 1910
Dilúvio em Lisboa
É notícia de primeira página no jornal O Século o temporal que assolou Lisboa no dia anterior. Relata o repórter que “desabava em verdadeiras catadupas sobre a cidade, ontem, às primeiras horas da manhã, a chuva torrencial, acompanhada de vento impetuoso. Desde então, o temporal não mais deixou de ser violente e persistente, sucedendo-se as bátegas de água que, pelo meio-dia, tomaram proporções assustadoras”.
E acrescenta: “Foi como um pequeno dilúvio, e logo as chuvas, acrescentadas com as águas que desciam das vertentes e desembocavam nos canos, se aglomeraram naqueles sabidos sítios que costumam ficar inundados quando em Lisboa a tempestade brame com ímpeto”. Deram-se várias inundações em diferentes pontos da cidade e “uma faísca eléctrica ziguezagueou sobre o hospital Estefânia”, incidindo “sobre um barracão que serve para a arrecadação de ferramentas, não fazendo mais destroços do que fender-lhe e aluir-lhe as paredes”.
Fonte: O Século n.º 10405, 29 de Novembro de 1910, p.1
30 de Novembro de 1910
A Bandeira Nacional
Noticia o jornal O Século que “reuniu ontem no ministério do Interior a comissão encarregada de confeccionar a bandeira nacional, a fim de confirmar ou modificar o seu primitivo parecer”. À reunião assistiu Guerra Junqueiro, que fez uma “exposição brilhantíssima” a propósito do seu projecto, segundo o qual se manteriam as cores nacionais azul e branco. Contudo, a comissão “entendeu não dever alterar o seu parecer primitivo”, sendo que assim “ficou definitivamente escolhida para bandeira da República aquela que os revolucionários do Porto desfraldaram no 31 de Janeiro e que, na madrugada trágica de 4 de Outubro, veio a acolher de novo aqueles que pelo triunfo da democracia não duvidavam expor-se até ao sacrifício da própria vida”.
O pintor Columbano, membro daquela comissão na qualidade de artista, refere a propósito da “bandeira que o povo criou e que ele carinhosamente alindou” que “o encarnado e o verde não casam tão mal como se disse. A questão está em se encontrar o tecido que convém, em não se aproveitarem as primeiras cambiantes dessas cores que apareçam. O verde carregado e o vermelho vivo são as que melhor se combinam (…). Na Cordoaria, onde a comissão esteve a examinar os tecidos que podiam ser aproveitados, só há o encarnado e o verde esmeralda. É pena.”
Fonte: O Século n.º 10406, 30 de Novembro de 1910, p.1
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