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Faz hoje (Outubro de 2010) 100 anos que...

Faz hoje 100 anos que...

1 de Outubro 1910 - Recepção ao Presidente do Brasil

No dia 1 de Outubro de 1910, o Presidente do Brasil, Marechal Hermes da Fonseca, deu início a uma visita oficial a Portugal. O Presidente iria permanecer no nosso País até ao dia 8 de Outubro, acompanhando de perto a revolução e a implantação da República. Pouco depois, caberia precisamente à República dos Estados Unidos do Brasil o primeiro reconhecimento oficial do regime Portugal.

A 1 de Outubro, a reportagem do jornal republicano A Capital descreveu o entusiasmo popular sobre a chegada de Hermes da Fonseca:
“No trajecto (…) do Arsenal da Marinha para o Paço de Belém e à sua entrada naquele edifício, muito embora o governo tentasse impedi-lo, recebeu inequívocas demonstrações do quanto a sua presença no nosso país é grata ao coração do povo, que ama a República e admira o país irmão, de que o Marechal Hermes da Fonseca é o chefe supremo.”

À chegada a Lisboa, o Presidente do Brasil foi também recebido pelo Directório do P.R.P e a Comissão Municipal Republicana. No Tejo, a bordo do vapor Lisbonense, tocou-se A Portuguesa, respondendo o vapor Alcochete com A Marselhesa. Depois de desembarcar em Lisboa, Hermes da Fonseca foi recebido oficialmente pelo rei D. Manuel II, a quem iria oferecer um banquete de homenagem no dia 3 de Outubro.

A 22 de Outubro de 1910, o Brasil reconheceu oficialmente a República Portuguesa, anunciando a intenção de manter as boas relações diplomáticas até então asseguradas entre os dois países.

Fonte: Primeira página d’A Capital, n.º 93, de 1 de Outubro de 1910.

2 de Outubro de 1910 – Reunião do Partido Republicano Português

A 2 de Outubro de 1910 convoca-se uma reunião de emergência na sede do Partido Republicano Português (PRP). Nesta reunião o Directório do PRP está representado por José Relvas, Inocêncio Camacho, José Barbosa, Cupertino Ribeiro e Eusébio Leão.

O Almirante Cândido dos Reis, chefe militar da revolução, marca as operações para a noite seguinte, apesar da prevenção das tropas ordenada por Teixeira de Sousa. Perante o receio dos oficiais do exército presentes na reunião, Cândido dos Reis terá afirmado: "Pois bem! A Marinha terá muita honra em ser fuzilada nas ruas pelos senhores! A Revolução não será adiada, sigam-me, se quiserem. Havendo um só que cumpra o seu dever, esse único serei eu."

António José de Almeida encerra os trabalhos com a frase "Meus senhores, a revolução está decidida." Neste mesmo dia, Cândido dos Reis transmite a Machado Santos e aos restantes chefes militares a senha da revolução: "Mandou-me procurar? - Passe cidadão!".

3 de Outubro de 1910 – Assassínio de Miguel Bombarda

Testemunho de Raul Brandão
Mataram o Dr. Bombarda. Espalha-se na cidade que foram os padres que instigaram um tenente a assassiná-lo. É falso, mas há correrias no Rossio e o “Portugal” foi apedrejado. Toda a gente acredita num crime planeado, toda a gente se insurge contra o facto brutal – toda a cidade republicana se transforma num vulcão. No Rossio juntam-se grupos de gente taciturna e desesperada: - Mataram-no! Mataram-no! – ouve-se. À uma hora da noite o Machado Santos à frente dum bando de populares atira-se ao portão de Infantaria 16.

Fonte: Machado Santos, A Revolução Portuguesa 1907-1910, (prefácio de Joel Serrão) Lisboa, Assírio e Alvim, Janeiro de 1982, p. XIII.

4 de Outubro de 1910 - Lisboa é um campo de batalha

A 4 de Outubro de 1910, depois de jantar com o Presidente do Brasil, o rei, D. Manuel II, partiu para o Palácio das Necessidades, enquanto o seu tio, e herdeiro da coroa, D. Afonso, seguia para a Cidadela de Cascais.

A revolução republicana iniciou-se em Lisboa nessa mesma madrugada, apoiando-se na sublevação dos principais quartéis de marinheiros da capital, em três vasos de guerra fundeados no Tejo, e duas unidades do Exército (Infantaria 16 em Campo de Ourique e Artilharia 1 em Campolide), bem como na acção de milhares de civis carbonários.

Os acontecimentos revolucionários concentraram-se na Rotunda, onde, após vários confrontos com a Guarda Municipal, os revoltosos se barricaram, sob o comando do comissário naval Machado Santos. Sem conseguirem ocupar o Palácio das Necessidades, os revoltosos, com o apoio da artilharia civil da carbonária, combateram as forças militares fiéis à monarquia até que os navios Adamastor e São Rafael bombardearam o Palácio Real das Necessidades, pondo em fuga a Família Real, primeiro para Mafra, depois, no dia 5 de Outubro, com destino a Gibraltar embarcando na praia da Ericeira.

Testemunho de Machado Santos
Na noite de 4 de Outubro, Os populares que estavam desarmados foram-se entretendo na construção de teóricas barricadas. Tudo servia, guaritas, madeiramento de obras, fios telegráficos, troncos de árvores, chapas de zinco, etc. (…) granadas das baterias de Queluz começam a chover na Rotunda (…) o acampamento responde ao fogo do inimigo e o Quartel de Artilharia 1, com duas peças, defendia-se galhardamente; ao mesmo tempo uma viva fuzilaria envolvia por completo a Rotunda.

Fonte: Machado Santos, A Revolução Portuguesa 1907-1910, (prefácio de Joel Serrão) Lisboa, Assírio e Alvim, Janeiro de 1982, pp. 78- 79.

5 de Outubro de 1910 - Proclamação da República

Na manhã do dia 5 de Outubro, em Lisboa, dirigentes do Partido Republicano Português dirigiram-se aos Paços do Concelho, de cuja varanda, José Relvas, acompanhado por Eusébio Leão e Inocêncio Camacho, proclamou a República: "Unidos todos numa mesma aspiração ideal, o Povo, o Exército e a Armada acabou de, em Portugal, proclamar a República".

Testemunho de José Relvas
A Praça do Município regurgitava, cheia pela multidão que ali acorrera logo depois de pacificada pela confraternização do Rossio. Foram proclamados os membros do Governo Provisório: Presidente, Teófilo Braga; Interior, António José de Almeida; Justiça, Afonso Costa; Finanças, Basílio Teles; Guerra, Correia Barreto; Marinha, Amaro de Azevedo Gomes; Obras Públicas, António Luís Gomes e Estrangeiros, Bernardino Machado. (…).

Fonte: José Relvas, Memórias Políticas, Lisboa, Terra Livre, 1977, p.151.

Testemunho de António José de Almeida
Batalhou-se durante três dias, mas batalhou-se honrosamente e aqueles que pegaram nas espingardas saíram dessa luta com as mãos tão puras de sangue que, voltando a seus lares podiam tomar ao colo as crianças que encontravam no berço.

Fonte: Discursos do Dr. António José de Almeida (Presidente de Portugal) Durante a sua estadia no Rio de Janeiro, de 17 a 27 de Setembro de 1922, por ocasião das festas comemorativas do 1.º centenário da Independência do Brasil, Rio de Janeiro, Jacinto Ribeiro dos Santos, 1922, p.36.

6 de Outubro de 1910 - Embarque da família real para o exílio

Anuncia o jornal O Século o embarque da família real portuguesa para o exílio, na sequência da implantação da república em Portugal. Refere o periódico que o “sr. D. Afonso embarcou em Cascais, pouco depois das 8 horas da manhã de quarta-feira, no yacht D. Amélia.

Este barco levantou imediatamente ferro rumo à Ericeira, para onde as duas rainhas e o rei, com quem, em Mafra, se haviam juntado, se dirigiram em automóveis”. O redactor chama a atenção para o facto de uma “numerosa multidão” aguardar naquela vila a família real, referindo contudo, que “não era, porém, qualquer sentimento afectuoso que ali levava toda aquela gente”.

Descreve o jornalista que “nos seus rostos impassíveis e frios apenas se manifestava a curiosidade de assistir a um espectáculo o do embarque para o exílio de quem, não tendo podido enraizar afeições no coração do povo, apenas conquistara, para ilusório desvanecimento próprio, a subserviência dos áulicos e as fementidas homenagens de cortesãos interesseiros e hipócritas”.

Fonte: O Século n.º 10352, 7 de Outubro de 1910, p.1

7 de Outubro de 1910 - A república em Sintra

Descreve o jornal O Século o modo como outras localidades receberam a notícia da implantação da República em Portugal. Em relação a Sintra, refere o periódico que “nesta vila tudo se passou (…) na melhor ordem, sem o menor incidente. A população da vila continua a manifestar-se com muito regozijo pela implantação da República”. É descrita também a sessão organizada pela comissão administrativa do município nos paços do concelho, que foi iniciada com o pedido a todos “pelo maior respeito pelas pessoas e haveres dos cidadãos, para, desta maneira, a obra da República impor-se ao respeito que lhe é devido”. Entre as várias resoluções tomadas nessa sessão, destaque para a deliberação em “dar estas denominações às seguintes ruas e largos, em Sintra: Praça da República ao antigo largo da Rainha D. Amélia; Avenida Miguel Bombarda à Avenida José Luciano de Castro; Avenida Cândido dos Reis à Avenida D. Amélia. Em Queluz; praça da República à praça D. Afonso, e em Belas, ao largo deste nome, largo 5 de Outubro”.

Fonte: O Século n.º10353, 8 de Outubro de 1910, p.2

Data de publicação: 

8 de Outubro de 1910 – Expulsão das Ordens Religiosas

O Governo Provisório da República publica um diploma, que mantém em vigor a lei pombalina de 3 de Setembro de 1759 "pela qual os jesuítas foram havidos por desnaturalizados e proscritos" e "expulsos de todo o país e seus domínios para neles mais não poderem entrar" e a lei de 28 de Agosto de 1787 que determina a expulsão imediata da Companhia de Jesus, assim como o decreto de 28 de Maio de 1834 (da autoria de Joaquim António de Aguiar) que extinguiu todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens regulares.

Data de publicação: 

 

9 de Outubro de 1910 - A revolução portuguesa no estrangeiro

O jornal O Século dá a conhecer o eco que a revolução republicana e Portugal em diversos periódicos franceses. No Le Matin o enviado especial entrevista Navarro Reverter, “que tem sido várias vezes ministro da fazenda em Espanha”. Diz o ilustre espanhol que “os acontecimentos em Portugal não terão repercussão alguma em Espanha”, uma vez que “o povo espanhol é monárquico e o governo liberal, muito popular”. Ainda neste periódico, é referida a “surpresa” com que D. Miguel recebeu a notícia da revolução e a sua opinião de que se deve “nada fazer contra o rei; tudo fazer pelo povo”.

O Petit Parisien publica uma entrevista ao antigo deputado dissidente Queiroz Ribeiro, que afirma que “Lisboa e Porto (…) são profundamente republicanas, e nos campos a monarquia perde todos os dias partidários. O nosso país estava maduro para a república (…). Uma revolução era inevitável”.

Por último, é referia a entrevista feita pelo jornal La Liberté a Magalhães Lima, que declara que depressa o governo provisório anunciará as políticas que defenderá para o interior e para o exterior, sendo que “no interior, [será] a que sempre propagou o partido republicano; instaura um regime constitucional e não fundado sobre a arbitrariedade; no exterior, viver em paz com as potências estrangeiras e estreitar ainda mais os laços que nos unem com a Inglaterra”.

Fonte: O Século, n.º10354, 9 de Outubro de 1910, p.4

11 de Outubro de 1910 - Uma relíquia da revolução

Data de publicação: 

Entre informações de teor mais político e social, refere o jornal O Século um pequeno episódio relacionado com a revolução:
“O sr. Manuel Joaquim Machado Júnior, sócio da firma Machado & Fonseca, com ourivesaria e relojoaria na rua de S. José (…) encontrou, na madrugada de 4, perto de sua casa, os restos de uma granada de artilharia que não tinha por completo explodido.
A granada conserva ainda a parte inferior, na qual o sr. Machado mandou colocar uma chapa de ouro, com a seguinte inscrição:

«Recordação da revolução que implantou a República em Portugal – 4-10-910». A parte superior ficou feita em pedaços que, como folhas de acanto, se dobram caprichosamente, formando como que um vaso artístico, de estranha modelação. (…)”
A notícia é acompanhada de um desenho desta “granada artística”.

Fonte: O Século n.º 10356, 11 de Outubro de 1910, p.3

 

12 de Outubro de 1910 - Criação da Guarda Nacional Republicana

O Governo Provisório da República suprime e substitui algumas das instituições existentes. É o caso do Juízo de Investigação Criminal; a dissolução das Guardas Municipais de Lisboa e Porto que foram substituídas pela Guarda Nacional Republicana e da Polícia Civil que foi substituída pela Polícia Cívica de Lisboa.

13 de Outubro de 1910 - As mulheres da revolução

Dedica o jornal O Século uma notícia referente às mulheres que “na hora suprema e sagrada da derrocada final, se juntam aos filhos, aos maridos, prontas a morrerem no posto de combate”. As mulheres que o periódico homenageia são “D. Maria Emília dos Santos, enfermeira diplomada; D. Olívia da Silva Toscano Saldanha e D. Rosa Ramos Pereira, sócias da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, e D. Amélia Cilde Lima e Alice Xavier da Fonseca, enfermeiras da benemérita instituição da Cruz Vermelha”.

O periódico entrevista uma das heroínas da revolução, D. Olívia Toscano, que descreve aqueles momentos na primeira pessoa: “Segui, desde o seu início, a revolução (…). A minha dedicação pelo partido republicano não tinha limites. Em minha casa (…) cheguei a reunir (…) membros das associações secretas que estavam planeando a revolução (…). Fui prevenida com dois dias de antecedência que a revolução ia dar-se (…)”. Sobre os perigos a que estiveram sujeitas, afirma: “Estilhaços de granadas quase roçaram pelas nossas saias (…). À senhora D. Maria Emília dos Santos chegou mesmo uma bala a chamuscar uma écharpe que tinha ao pescoço (…). Mas (…) tudo isso é insignificante, relativamente à causa sacratíssima que vencemos, ao facto gigantesco que hoje a todo o mundo assombra: a implantação da República em Portugal”.

Fonte: O Século n.º 10358, 13 de Outubro de 1910, pp.1-2

14 de Outubro de 1910 - Morte de Cândido dos Reis

Noticia o jornal O Século as especulações e boatos surgidos em torno da morte do almirante Cândido dos Reis: “(…) da mesma maneira que nada houve que pudesse convencer a opinião pública de que o dr. Miguel Bombarda não tivesse sido vítima de um manejo revolucionário, também agora, após o aparecimento misterioso do cadáver do almirante Cândido dos Reis, boatos idênticos correm com igual insistência, tendentes a demonstrar que o ilustre chefe revolucionário foi assassinado por mão armada por elementos da reacção, visto que o plano da revolução tinha sido denunciado”.

Apesar dos boatos e da teoria de que a morte de Cândido dos Reis faria parte “de um manejo que tinha por objecto liquidar (…) todos os chefes do movimento”, o jornal refere que a maioria dos médicos que assistiram à autópsia “se inclina a que se trate de um suicídio”, referindo que isso não exclui “a ideia de que ele possa ter sido assassinado à queima-roupa, visto o exame médico ter constatado que foi dessa forma que o tiro foi disparado (…)”.

Fonte: O Século n.º 10359, 14 de Outubro de 1910, p.1

15 de Outubro de 1910 - Nova Bandeira Nacional

A 15 de Outubro de 1910 é publicado o decreto que nomeia uma comissão encarregada pelo Governo de projectar a nova bandeira nacional.

Dela fazem parte: o escritor Abel Acácio de Almeida Botelho, Columbano Bordalo Pinheiro, primeiro tenente da Armada António Ladislau Parreira, capitão de artilharia José Afonso de Pala e João Chagas.

16 de Outubro de 1910 - O Republicano Português

No fervor revolucionário surgem as mais diversas manifestações de apoio ao novo regime. Uma delas é anunciada pelo jornal O Século: “Por intermédio do nosso estimado correspondente em Marvão, foi-nos enviada a partitura de um passo dobrado, intitulado O Republicano Português, de que é autor o sr. José Xavier Romão, regente da Filarmónica Republicana Marvanense. É uma composição inspirada e entusiástica com que o autor, um músico de incontestável merecimento, quis associar-se ao regozijo nacional pela vitória das ideias republicanas. (…) O Republicano Português merece ser executado, e certamente será, pelo seu belo efeito musical e agradável melodia”.

Fonte: O Século n.º10361, 16 de Outubro de 1910, p.3

17 de Outubro de 1910 - Os funerais de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis

O jornal O Século apresenta uma extensa reportagem sobre os funerais de Miguel Bombarda e de Cândido dos Reis, acontecimento a que assistiram “mais de duzentas mil pessoas”, que desse modo afirmaram “a sua adesão à república”.

O cortejo fúnebre partiu da Câmara Municipal, onde os féretros se encontravam em câmara ardente, sendo que “a romagem principiou muito cedo, não havendo colectividade republicana que não mandasse aos paços do concelho prestar aos dois mortos ilustres as devidas homenagens todos ou quase todos os seus membros”. As cerimónias foram pontuadas pelos discursos das principais individualidades republicanas e prolongaram-se por todo o dia: o cortejo passou pelo Terreiro do Paço, Largo Camões, Rotunda e terminou no cemitério do alto de S. João. Termina a reportagem com as seguintes palavras: “Findos os discursos, os caixões que repousavam sobre os dois estrados, cobertos com panos pretos, foram conduzidos para as campas rasas e descidos (…). Cá fora, a artilharia 1 deu uma salva de 15 tiros, seguida de três descargas de infantaria, tendo já antes, à passagem dos féretros pelo Terreiro do Paço, salvado os navios de guerra nacionais surtos no Tejo”.

Fonte: O Século n.º 10462, 17 de Outubro de 1910, pp. 1-3

18 de Outubro de 1910 – Abolição dos títulos nobiliárquicos

“O Governo Provisório da República Portuguesa, em nome da República, faz saber que se decretou, para valor como lei, o seguinte:
Artigo 1.º A Republica Portuguesa tem por abolidos e não reconhece qaesquer títulos nobiliarchicos, distincções honoríficas ou direitos de nobreza.
Art. 2.º As antigas ordens nobiliarchicas são declaradas extinctas para todos os effeitos.
Art. 3.º É mantida a Ordem Militar da Torre e Espada, cujo quadro será revisto para a radiação pura e simples de todos os seus dignitários que não houverem sido agraciados por actos de valor militar em defesa da pátria.
Art. 4.º Os indivíduos que actualmente usam títulos que lhes fora, conferidos, e de que pagaram os respectivos direitos, podem continuar a usá-los, mas nos actos e contratos qie tenham de produzir direitos ou obrigações era necessário o emprego do nome civil para que tenham validade.”

Fonte: Diário do Governo, 18 de Outubro de 1910

19 de Outubro de 1910 – Abolição do juramento religioso

“O Governo Provisório da República Portuguesa faz saber que, em nome da República, se decretou, para valor como lei, o seguinte:

Artigo 1.º É abolido o juramento com carácter religioso, qualquer que seja a sua fórmula.

Art. 2.º As pessoas que houverem de exercer acidental, temporária ou permanentemente quaisquer funções de carácter ou interesse público, para as quais se tem exigido até agora a prestação de juramento, somente são obrigadas e autorizadas a afirmar, empenhando a sua honra, que cumprirão com fidelidade as funções que lhes são conferidas.

Art. 3.º A fórmula desta afirmação será: Declaro pela minha honra que desempenharei fielmente as funções que se são confiadas.

Art. 4.º As testemunhas farão, antes do depoimento, a mesma declaração ao respectivo juiz, que poderá explicar-lhes, se o entender necessário, que ela as obriga a dizer a verdade e as sujeita, em caso de falta, às penas de testemunho falso.

ÚNICO. As demais pessoas que, faltando propositadamente a esta declaração, deixarem de cumprir os seus deveres, ficam sujeitos ás respectivas sanções penais e disciplinares

.(…)"

Fonte: Diário do Governo, 19 de Outubro de 1910

20 de Outubro de 1910 - Bando precatório a favor das vítimas da revolução

Teve eco na imprensa e no jornal O Século o desfile do bando precatório a favor das vítimas da revolução de 5 de Outubro. O cortejo era composto do seguinte modo: “à frente, estudantes das escolas, com as capas enroladas, fazendo um cordão de um lado e outro (…). Seguiu-se a banda da marinha (…) que executou, durante o trajecto do cortejo, a Portuguesa e as marchas fúnebres Saudade e Cruz. Depois, uma lona, segura pelos alunos do Colégio Militar da Luz (…). Depois, o carro de triunfo, uma pirâmide coberta de crepes, sobre uma galera dos bombeiros, também de luto, coberta de rosas, tendo duas bandeiras republicanas de cada lado. (…)”.

O cortejo fez um largo percurso pela cidade, que durou entre as 11 horas e as 7 horas da noite. Os donativos foram fartos e variados: “as vendedeiras de peixe, do mercado da Praça da Figueira (…) juntaram-se em grande número, contribuindo todas com moedas de cobre”; “Na rua de Arroios, um indivíduo deu 5$000 réis, e outro uma cautela de 50 réis (…)”; “A sr.ª Adelina Moreira, moradora na rua da Palma, 261, deu uma porção de roupa, ceroulas, camisolas e um fato e criança e algum dinheiro. Uma outra senhora, que passava, entregou a um estudante um embrulho com um par de brincos de ouro

(…)”.

Fonte: O Século n.º 10365, 20 de Outubro de 1910, p.1

21 de Outubro de 1910 - Alterações toponímicas em Lisboa

Descreve o jornal O Século a sessão realizada no dia anterior na Câmara Municipal de Lisboa. Um dos principais tópicos foi a mudança de toponímia na cidade, sendo lido “um ofício da junta de paróquia de S. Pedro, em Alcântara, manifestando o seu vivo desejo de que as ruas daquela freguesia, denominadas Conselheiro Pedro Franco, Correia Guedes, Conselheiro Nazareth, Cruz, Maria Pia e Príncipe, se passassem a chamar, respectivamente, Marquês de Pombal, Joaquim Pedro Faria, João de Oliveira Miguens, José Fontana, Gilberto Rola e Ernesto da Silva, prestando-se por esta forma singela homenagem ao muito que todos aqueles cidadãos contribuíram em vida para a causa do povo”.

Apesar de a maioria das opiniões dos intervenientes na sessão serem favoráveis às alterações toponímicas propostas, salienta-se a intervenção do dr. Cunha e Costa, que “declara não estar de acordo com a mudança dos nomes das ruas, pelos grandes inconvenientes que isso trás” e que afirma: “Os donos dos prédios de ruas que mudam de nome têm em registos nas conservatórias, etc., de fazer importantes, despesas, indo buscar aos inquilinos a importância necessária para a elas fazer face. Além disso, não se é mais ou menos republicano por causa dos nomes das ruas. (…) O estar a tirar os nomes dos santos e monárquicos para os substituir por outros é uma pieguice imprópria de uma República que se implantou tão brilhantemente como a nossa (…)”.

Fonte: O Século n.º 10366, 21 de Outubro de 1910, p.3

22 de Outubro 1910 - Abolição do ensino religioso nas escolas

Decreto sobre o ensino da religião e moral na escola primária, assinado pelo ministro do interior, António José de Almeida:

“Para satisfazer ao espírito liberal e às aspirações dos sentimentos republicanos da Nação Portuguesa; Tendo em vista que o Estado não pode obrigar as famílias, e, portanto, as crianças a determinada crença religiosa; Considerando que o ensino dos dogmas é incompatível com o pensamento pedagógico que deve regular a instrução educativa das escolas primárias; O Governo Provisório da República Portuguesa, decreta o seguinte:

Artigo 1.º Fica extinto nas escolas (…) o ensino da doutrina cristã;

Artigo 2.º O ensino da moral (…) será feito sem o auxílio de livro, intuitivamente, pelo exemplo da compostura, bondade, tenacidade e método de trabalho do professor e pela explicação de factos de valor cívico e moral (…);

Artigo 3.º A educação cívica nas escolas (…), enquanto não forem aprovados novos livros segundo o espírito democrático da República, será feita também por prelecções do professor, que se deverá inspirar sempre nos sentimentos da Pátria, amor do lar, do trabalho e da liberdade (…).”

Fonte: O Século n.º10368, 23 de Outubro de 1910, p.2

24 de Outubro de 1910 - Carta de Guerra Junqueiro

Na sequência de uma entrevista dada por Guerra Junqueiro ao periódico El Imparcial, que havia sido noticiada n’O Século, escreve o poeta a este jornal: “Na minha conversa com o distinto correspondente do Imparcial (…) há ligeiros equívocos, dois dos quais preciso rectificar: Declarei, não que o povo português, mas que grande parte do povo português, já fora do cárcere, não estava ainda solto moralmente. Contudo, o povo de Lisboa afirmou, na revolução, a posse inteira da liberdade moral no grau mais alto, no estado soberano (…).

Também não afirmei que há doze anos Portugal não dá ao mundo nem ciência, nem arte, nem poesia. Ciência não a dá pelas razões indicadas; forças intelectuais poderosas, ou abortaram, envenenando-se dentro da monarquia, ou se gastaram contra ela. A arte sucumbiu. Apenas raras figuras de excepção, como o genial Columbano ou o admirável Teixeira Lopes.

Mas a plêiade de poetas, ao contrário, é hoje verdadeiramente maravilhosa. Há muito que o génio lírico da raça os não produz tão belos e tão grandes. Para que hei-de citar Pascoais, Correia de Oliveira, Afonso Lopes Vieira, Augusto Gil, Augusto Casimiro, Jaime Cortesão, Patrício e tantos outros? O que lhes falta é público. Portugal desconhece-os. A trovoada política abafou o canto dos rouxinóis. Agora vão ouvir-se”.

Fonte: O Século n.º 10369, 24 de Outubro de 1910, p.1

25 de Outubro de 1910 - Um busto da república

Noticia o jornal O Século, num artigo ilustrado: “Há cerca de um ano, apareceu exposto nos mostruários das livrarias e de outros estabelecimentos um pequeno busto da República, assinado por João da Nova. Aos elementos que propagavam os ideais democráticos, hoje triunfantes, juntava-se mais este: a arte.

João da Nova, pseudónimo de um artista que tem tanto de modesto como de primoroso, contribuía para a propaganda republicana com um trabalho de rara beleza estética e, simultaneamente, psicológica. (…) Ora, é ocasião de dizer que o artista trabalhara a sua obra com todo o ardor de uma alma apaixonadamente republicana, que, no instante da revolução, trocou a serena paz do atelier pelos pontos mais perigosos onde se debateu a causa republicana”.

Fonte: O Século n.º 10370, 25 de Outubro de 1910, p.1

26 de Outubro de 1910 - As greves

Publica o jornal O Século um artigo sobre as greves, numa época marcadas pelos constantes protestos dos trabalhadores das mais diversas áreas. Afirma o redactor:”Não há dúvida que a greve é um meio de defesa do operariado, legítimo e sancionado pelas leis de todos os país cultos (…).

Todavia, por muito justas que sejam as reivindicações operárias que determinam esses movimentos, parece-nos que ocasiões há em que o interesse da comunidade deve prevalecer a tudo”. O articulista refere-se claramente ao ambiente pós-revolucionário que se vive em Portugal: “Neste momento, as greves, longe de beneficiarem quaisquer classes trabalhadoras, prejudicam-nas (…).

Só o espírito reaccionário (…) do extinto regime é que poderia instigar as classes trabalhadoras a movimentos inoportunos, como a da greve dos carroceiros. (…) Consolidada que esteja a República, o governo (…) está no firme propósito de promover a melhoria das condições de vida dessas classes (…). Cumpre, pois, a todos não embaraçarem a acção do governo, e pelo contrário, coadjuvá-lo o mais fervorosamente possível”.

Fonte: O Século n.º 10371, 26 de Outubro de 1910, p.1

27 de Outubro de 1910 - Despedimentos na  Companhia dos Tabacos

Teve eco na imprensa e no jornal O Século o despedimento de duzentas operárias da Companhia dos Tabacos, que “tendo diante de si a perspectiva da miséria, pela cessação dos salários auferidos pelo esforço dos seus braços laboriosos”, decidiram dirigir-se ao ministério das finanças, para “expor os seus queixumes” e “pedir a intervenção do governo para serem readmitidas, com todas as garantias a que se julgam com direito”.

Afirma aquele periódico que “ao que parece, a sua pretensão será atendida, mas só a contar do dia 2 de Novembro próximo, em que consta que a readmissão se efectuará”. E acrescenta, concluindo: “E como o caso, necessariamente, viria a lançar mais uma nota de perturbação na atmosfera plácida de que o governo carece para prosseguir na sua obra (…), folgamos que ele se tenha resolvido sem dificuldade de maior, pela satisfação dada à justa pretensão das reclamantes”.

Fonte: O Século n.º 10372, 27 de Outubro de 1910, p.1

Data de publicação: 

29 de Outubro de 1910 - Inauguração do novo Chiado Terrasse

Anuncia o jornal O Século a inauguração do salão animatógrafo Chiado Terrasse, “no mesmo local do antigo e acreditado salão”. Segundo aquele periódico, “Lisboa conta hoje com mais uma casa de espectáculos elegante, vasta, com todo o conforto, com muito gosto artístico e modernizada”, com um “aspecto artístico” que convida toda a gente a frequentá-la.

E descreve: “O novo salão (…) tem uma admirável disposição de conjunto. É um modelo no género e representa uma temerária iniciativa (…). Comporta mais de 800 pessoas, das quais algumas podem presenciar o espectáculo numa galeria artisticamente disposta ao fundo”. É ainda referido que “A empresa (…) projecta organizar os seus espectáculos de forma que os seus programas correspondam ao valor e à categoria do salão, que pode também utilizar um palco, com dimensões suficientes para a exploração de trabalhos com companhias de variedades”.

Fonte: O Século n.º 10374, 29 de Outubro de 1910, p.3

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